Se há doença que me diagnosticar, chamo-lhe Síndroma de Peter Pan. Sim, o menino que vivia na Terra do Nunca e não queria crescer. Parece-vos infantil? Tanto, que roça o ridículo.
E tudo começa, inevitavelmente, há muito tempo atrás, nos anos em que qualquer coisa era tão possível quanto dramática...a adolescência. Passei por ela com distinção e não tenho grandes males a lamentar. Era um modelo de virtude, empenho e ambição. Que inveja!
Mesmo assim, tudo era vivido ao máximo, a espectativa era enorme, as responsabilidades mínimas, mas crescentes. Desde muito cedo Mina foi independente. Quando os pais de toda a gente despejavam e recolhiam a sua descendência na escola, eu apanhava o autocarro. Aquele ritual de todos os dias nunca me foi penoso, pelo contrário. Tinha liberdade de ser e fazer o que me apetecesse, desde que estivesse em casa na hora estipulada. Que falta que me faz hoje uma boa regra, o recolher obrigatório.
Mina cumpriu o seu papel de filha, irmã, sobrinha e amiga. Não era assim tão complicado. Até o dia...
E que dia foi esse? Ainda não sei. Só sei que ainda é hoje, todos os dias. Desde então parei de crescer e vivo num mundo, que não sendo a Terra no Nunca, é Terra do Nunca Mais. Nunca mais sou grande. Sinto-me incapaz de coexistir no mesmo lugar que toda a gente que vive, todos os dias, mais um dia simples. Inadaptação? Sono...um sono enorme que me faz dormir a ambição, o empenho e a vida.
Sou infeliz? A felicidade está demasiado sobrevalorizada. Ser ou não ser, não é, de todo, a questão. Apesar de estar presa num 'rewind', como se de 'play se tratasse, tiro de mim e de com quem privo, o máximo possível, esponja de valores. E esta vida que ora é sono, ora é benção, vai me apurando o gosto, limando as falhas, aparando as arestas vivas de medo e de mudança.
Nos mais recentes anos, Mina foi nómada. Andava de casa em casa, disputada por quem (eu?) me necessitava. E eu ia, muito capaz e disponível. Vejo agora que tinha tudo de mau como de bom. Por um lado, a responsabilidade de preparar alguém para mais um dia, do outro, adormecer e acordar ao lado de quem se quer muito. E ainda as folgas, em casa não própria, mas do mais fixo que tenho.
Era uma canseira, eu sei. Hoje adormeço na minha cama e acordo, surpresa, nela mesma! Está quente de mim, mas fria de espaço. Basta-me, mas não me completa. Continua a ser cansaço...de nada.
Insatisfeita, mais do que tudo. Cada opção que tomo, por mais válida que seja, é sempre retardada por um sentimento de que a concretização não basta. E aí reside o erro. Ainda antes de fazer por isso, estou a questionar se vale a pena e a ponderar o falhanço.
Não quero mais ser assim. Quero voltar a passear nas coisas sem ter que as pensar tão dolorosamente. Quero tentar, só por tentar. Fazer, só porque tem que ser. Desistir, se preciso for. Mudar, se me sentir diferente. Quero ser fiel a mim mesma, sem me levar por hesitações que me atrasem a consciência.
Peter Pan, o tanas! Estou no grau máximo de um melanoma que eu mesma fiz crescer em mim. Quero estirpá-lo, o quanto antes. Quero fazer quimioterapia de vida, matar o cancro que me tornei, ter uma segunda oportunidade. Tenho sobrevivido assim. Agora, quero viver. Sozinha, saudável e capaz, como dantes fui. Melhor, porque agora o sei.
Fast forward,
Mina
+ um texto profundo que me deixas a pensar na minha vida!
ResponderExcluirPeter pan..compreendo mt bem esse sindrome.. mas na minha vida..apercebi que sozinhas custa mais a voar e a crescer na "Terra do Nunca".
Sem confiança temos medo de saltar, voar e medo de tudo o que seja para nos tornar responsaveis.. medo do capitão gancho..do crocodilo...
Dei por mim a pensar atraves do teu texto que se eu tb era uma menina que sentia isso, agora vejo q casei e vou ser mamã..e onde está o sindrome?? Nem dei por ele..nem o senti.. Por isso o importante é teres a confiança que vais conseguir voar... e quando deres por ti serás uma Senhora Mina :)
Ate que deixas de ser uma das crianças do terra do nunca, embora nós nao queremos crescer nao é??
So um aparte..mesmo com a minha barriga.. qd entro nas lojas ou nos autocarros..tratam sp por menina!! Nem assim sou senhora!! :P