Saudações minescas!
Faz uma semana que estou para vos falar da já encetada lide académica. Por enquanto, ainda sem grandes dores, mas já com leitura obrigatória e proposta de trabalho.
É sempre com grande espectativa que encaro os programas de cada disciplina, nomeadamente as mais práticas. Folgo em saber que há testes escritos para uma científica avaliação de conhecimentos, mas o que mais me preocupa são os trabalhos práticos. Desde que no primeiro ano de caloira, no defunto curso de arquitectura, me puseram a brincar com cubos de 10x10 centímetros de esferovite , tudo o resto parece-me muito pouco interessante. Diga-se de passagem que me dei muito mal com os ditos cujos e que me saiu mais de sujeira que de aprendizagem.
Não ultrapassada que está a fasquia, foi-me proposta a execução de uma banda desenhada, baseada no segmento de um conto que, após ponderação do docente, veio a ser 'A Metamorfose', de Franz Kafka. Assim de repente, logo me pareceu demasiado adulto para o público que me acompanha na sala de aula, mas aí lembrei-me...aaah bom, universidade! Acho que já tinha uma lasquinha de saudades deste mundo conceptual e criador de onde nunca devia ter saído e onde vim parar depois de incursões muito pouco ponderadas e sucedidas. Acho que, finalmente, estou bem aqui.
Quanto ao conto, propriamente dito, custou pegar-lhe. Menos de cem páginas parecia até facilitador, mas esta inércia latejante atormenta-me até à véspera de entregas e só hoje, precisamente véspera, me dignei a ler até ao fim.
Lido que está, muito me agrada a semelhança metafórica que tem com a minha própria existência recente. Mui resumidamente, conta a história de um caixeiro viajante, Gregor Samsa, que um dia acorda metamorfoseado em insecto. A partir daí, gera-se um drama familiar, que se estende aos pais e irmã, com quem vive, até ao total definhamento e consequente morte do coitado. O mais triste é que não é de Baygon que perece o bichinho. Leiam, por favor!
Foi fácil fazer o paralelo...'A Minamorfose', pensei. Também eu acordei um dia e era uma vaca. Sim, uma animalidade enorme, conformada e pastante. Não sei se as vacas são infelizes, mas Mina era. De uma maneira muito correcta, porque não era consciente, nem tão pouco voluntária. Agora sei, que muito errada e consentida.
A verdade é que não tinha ganas para ser de outra maneira. Tal como Gregor, o insecto, também eu me estranhei ao ver-me naqueles contornos. Porém, padecia de um estranho bem estar que me tomava o espírito e fazia com que sobrevivesse, adaptada aquilo que me tinha transformado. Por mais que me tentasse mexer, tudo era difícil, incómodo e assustador, por isso foi mais fácil deixar-me ficar.
Mina sentiu-se como Gregor...presa num quarto demasiado grande e inadaptado. E tinha vergonha de me mostrar assim, vaca. Não era uma questão de físico, mas uma agonia de não estar a ser, a corresponder e validar aquilo que esperavam que eu fosse. E nada podia fazer, só esperar por ajuda...e eu gritava...gritava e não me ouviam. Mugia.
Tudo teria sido menos óbvio se não tivesse aquela porta, por onde também eles chamavam por mim e estranhavam o meu atraso. No entanto, não podiam fazer nada...não me sabiam por dentro. E é neste momento que importa distinguir os que continuaram a ignorar, por me saberem capaz e os que desistiram, à semelhança da família de Gregor. Enquanto que esses me alimentaram para garantir a minha sobrevivência, outros assistiram ao meu enfraquecer, à espera do fim. Não eras pai, nem mãe, nem irmã...eras o meu companheiro. E desististe de mim.
Foi assim que eu, que outrora fui a força, o sustento e o calor da casa a que chamei relacionamento, passei a ser peso, excesso e dificuldade. Nunca pensei que o fizesses, mas mandaste me abater.
(...)
O conto acaba que nem 'viveram felizes para sempre'. O bug morreu. Pai, mãe e irmã descobrem uma nova dinâmica familiar e preparam-se para uma vida diferente, mais relaxada e produtiva.
E tu?
E eu?
To be continued...
Minaa
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