segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
Mina ao confessionário
Os factos que me fazem hoje ajoelhar já estavam esquecidos, mas quis o acaso que tornassem a Mina. Remontam a uma fase da minha vida que considero ter sido charneira para o meu entendimento como indivíduo em sociedade.
Este foi um período de extremos. Na altura, o simultâneo de acontecimentos muito maus e muito bons foi tão avassalador, quanto oportuno. Estava em trânsito entre possibilidades e optei por me dar a hipótese de desistir, coisa que até então só atribuía aos fracos. De fraca me tomei e aceitei o que quer que estivesse para vir. Pudera, era caso para não alternativa possível.
Foi então que, não sei bem como, dei por mim a aceitar uma proposta de trabalho que nem nos meus piores pesadelos alguma vez ponderei...atendimento ao público. Então porquê? É um trabalho como outro qualquer, pensaria qualquer um. Mina não. Eu era tão pouco humilde, que sujeitar-me a estar atrás de um balcão me provocava tal urticária que era tudo de castigo e nunca opção. Não era para isto que estava formatada e nunca na vida me tinha permitido pensar de outra forma.
Ainda assim, não sei bem como ou porquê, aceitei. Era só um ginásio, coisinha pouca. Somente uma média de duzentas e cinquenta entradas por dia, dez pacotes diferentes e um staff alargado. Pessoas, serviços e uns quantos conhecidos...porque não? Pois sim.
Confesso que no início até me deixei deslumbrar. A dinâmica era tal, que até me permiti gostar e disponibilizei-me totalmente para as tarefas que me foram atribuídas. Mina, que sempre foi a melhor em tudo o que fazia, não imaginava o que estava para vir. Falhar nunca esteve em questão, principalmente porque que ainda agora tinha provado o fel do fracasso. Por isso, foram quatro anos de constante desafio. O que começou por ser erro, logo se tornou correcção e tecnicamente nada tenho a dizer sobre o meu desempenho. Sempre dei o meu melhor e compreendi que acima dos meus interesses, está o sucesso do clube.
Sei que no início, a minha postura como pessoa deixou muito a desejar. Não creio ter sido desagradável com ninguém, mas o meu auto-convencimento, admito, pode ser deveras irritante. Também sei que sou de difícil entranhamento, o que só abona a meu favor, a longo prazo. Digo isto, porque também fez parte da minha aprendizagem o saber gerir-me como pessoa e colega, sem provocar estranhamentos maiores.
Acredito piamente que tenho valor acrescentado e ao jeito de Principezinho, procuro ser responsável por todos aqueles que cativo. O grande drama é quando tenho que me dar com alguém que por alguma razão ou razão nenhuma, não me deixa confortável. Felizmente não me acontece tanto assim, mas acontecendo, tenho sempre a hipótese de não reincidir. Nestes casos, importa não valorizar tanto assim e ser o mais normal possível. O que me incomoda, é que sabendo-me como sei, não consigo aceitar que haja um filtro entre mim e outra pessoa, como se eu não conseguisse chegar a ela ou ela a mim. Sei que não devia me ralar tanto assim, mas é inevitável o pouco à vontade e questiono-me se o problema sou eu. Tenho noção que não é possível controlar assim as empatias pessoais e tenho tentado aceitar que não sou universal, mas ainda assim, é difícil.
O episódio que me motiva hoje, é prova do extremo a que levo este mau estar. Aconteceu com uma colega de trabalho com a qual não tinha particular afinidade mas com quem mantinha um relacionamento profissional. Admito que muitas vezes afirmei, à frente da própria e das colegas, ser a melhor recepcionista a recibos verdes e que a tal era um erro de casting por não poder trabalhar aos fins de semana, mas aquela noite em que, a seco, me acusa de ser 'intriguista'...foi muito!
Ora, pensando assim, e se estava entalado, a dita cuja tinha mais é que o dizer, mas sou uma acérrima defensora que certas coisas não se dizem, por mais sentidas que sejam. Na altura, nem tive reacção e fiquei tão mal que só mais tarde me questionei se aquela pessoa, que eu nunca achei dever muito à inteligência, sabia sequer o significado do termo e o quão grave era aquela acusação. O golpe foi de tal maneira fundo, que dei azo à paranóia e desatei a perguntar a toda a gente o que pensava de mim...verdadeiramente! Para meu descanso, ninguém me acusou de semelhante coisa, mas também fiz questão de perguntar só às pessoas que me interessava manter na carteira de relacionamentos e que muito legitimamente conquistei.
A partir daí, a dinâmica entre nós mudou, mas só por mim. Estranhamente, ou não, a atitude dela para comigo continuou a ser a mesma que até então. Parecia mesmo que nada daquilo a afectava, que a vida é mesmo assim e que é perfeitamente normal coexistir com uma pessoa falsa como eu e dizê-lo com toda a propriedade. Ainda hoje me cumprimenta como se nada fosse. Quase me faz pensar que foi só um sonho mau.
Estou aqui a tentar me lembrar há quanto tempo isto se passou e creio não estar enganada...faz pelo menos três anos. Mina pensava ter superado este trauma...até ontem. Estava eu no café com as girls e uns quantos figurantes, quando venho a saber que um deles é relativo da dita cuja e que uma das minhas girls já foi, em tempos, a sua melhor amiga! Tranquilo, pensei eu. Até que, mais tarde, já sem figuração, comento que a dita cuja não me traz boas recordações e conto a história. E não é que a desgraçada já lhe tinha dito que eu era uma falsa!? Please...parem o carrossel que eu quero sair!
Enfim...seguiu-se uma discussão sobre o assunto e a conclusão que não podemos gostar todos uns dos outros e não sei quê. Não me confortou, por isso aqui fica o desabafo. Sei que não posso controlar aquilo que os outros pensam de mim e também já fui avisada que dou demasiada importância ao assunto.
Quase que me condeno, escrito isto, por parecer tão coisinha e sentida, mas apesar da minha falibilidade como ser humano, tomo-me por exemplo de tolerância e bom senso que tanto falta nas pessoas com quem tenho que lidar mais ou menos estreitamente. Tento ser o mais imparcial possível nos meus julgamentos e procuro sempre a melhor argumentação para justificar o comportamento humano. O mais cruel é que quando nos sentimos injustiçados, difícil é passar por nós mesmos e pela vida como se nada fosse e blindar de indiferença o que nos afecta.
Absolvida ou não,
Mina*
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quero saber desta historia !!!!!ASAP
ResponderExcluireu tb... uma brisa maracuja para fofocas???
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